Raio-X dos homicídios em Fortaleza em 2012

Queria muito saber quantos furtos, roubos ou tentativas de assalto aconteceram no meu bairro ano passado. Mas a Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS) só registra furto/roubo de carro. A SSPDS contabiliza os homicídios dolosos no Ceará e vi muitas matérias reportando que em 2012 foram 3.565 assassinatos em todo o estado. Mas e aí? Quero saber é quantos morreram no meu bairro. Será que, proporcionalmente, meu bairro é um dos mais violentos? Será que minha Regional foi a teve mais assassinatos? Os bairros mais pobres são também os mais violentos? Qual o bairro que não registrou nenhum homicídio em 2012?

A partir dos dados da SSPDS (apesar de estarem em PDF) procurei responder a essas minhas curiosidades.

Em valores absolutos, os 10 bairros mais violentos em 2012 foram, na ordem: Barra do Ceará, Jangurussu, Bom Jardim, Mondubim, Messejana e Conjunto Palmeiras, Barroso, Pirambu, Geninbaú e Quintino Cunha.

11 bairros não tiveram nenhum homicídio no ano passado: Amadeu Furtado, Bairro De Lourdes, Bom Futuro, Coaçu, Gentilândia, Guajerú, Parque Araxá, Parque Manibura, Parreão, Salinas e São Bento. Seis pessoas foram mortas em localidades não identificadas. Clique na imagem para ver a lista completa de todos bairros com homicídios dolosos.

Bairros com mais homicídios em valores absolutos

Trabalhar apenas com valores absolutos, às vezes, esconde informações. É preciso colocar os dados em contexto. Quando calculamos os locais mais violentos por mil habitantes, apenas três permanecem no top 10: Barroso, Bom Jardim e Pirambu. A Barra do Ceará, líder em número absoluto, cai para a 25ª colocação. E a Sabiaguaba sai da casa 63ª posição para assumir a liderança. Sabiaguaba é 4,4 vezes mais violenta do que a Barra do Ceará. Infelizmente não encontrei a população do Parque Santa Maria, que teve seis homicídios ano passado.

Bairros com mais homicídios por mil habitantes em 2012

O gráfico abaixo teve que ser adaptado à minha inaptidão em desenvolver gráfico de dispersão mais elaborado. Procurei mostrar a relação entre homicídios dolosos e a renda de cada bairro. Não creio que exista uma relação de causa e efeito, mas deixo a interpretação por sua conta. Não estão presentes os 11 bairros que não tiveram mortes ano passado e o Parque Santa Maria.

Número de homicídios comparado com a renda per capita dos bairros

Deixando os bairros de lado, segue um resumão relacionando os assassinatos e as regionais (mapa das regionais). Regional VI foi a que teve mais homicídios em 2012, concentrando 29% dos crimes.

Geral das regionais

Essas são algumas leituras possíveis cruzando os números da SSPDS com dados do IBGE. As informações usadas neste post estão disponíveis para download ao clicar nas imagens.

8 opiniões sobre “Raio-X dos homicídios em Fortaleza em 2012

  1. Muito importante esse cruzamento de dados estas análises! No dia a dias, os cidadão ficam mal acostumados com a reprodução moral dos acontecimentos políticos da cidade e pouca oportunidade se dão de tentar entender um pouco mais outros elementos de ordem técnica e também política de gestão e governabilidade que envolvem este debate.
    No que atine a análise propriamente dita, fiquei curioso, após a leitura, da associação deste dados a partir dos últimos 4, 5 anos, considerando as políticas executadas no local, tanto de polícia quanto de cidadania/inclusão. Parece que este tipo de dados tão alarmantes são tratados e analisados com pouca cautela e reproduzem uma “cultura do medo” associado a um discurso de “contra-violência” quando muitas das experiências exitosas no enfrentamento destes altos índices de violência transitam em uma lógica de construção de cidadania coletiva.
    A Barra do Ceará, pode até a vir servir de exemplo, já que, apesar de aparecer em 1a e por isso ser considerada “muito violenta” deixa de estar entre as 10 primeiras quando proporcional à homicídios dolosos/ número de cidadãos. Existe relação disso com políticas sociais implementadas no local? Quão eficientes são as batidas policiais nos “pontos de crack”? Isto reduz mais o crime do que política de reinserção social com psicólogo e assistente social?
    Reflexões que parecem bobas, mas deviam estar mais nas inquietações permanentes e menos nas certezas absolutas de que nos envaidecemos como animais políticos.

    • Para conseguir essa informação dos anos anteriores tem que enviar um formulário para a secretária solicitando os dados. Vou tentar. Outra informação que a secretaria deveria disponibilizar é: hora do homicídio. Ou pelo menos o dia em que cada um aconteceu. Isso para não falar em informações básicas das vítimas que são sonegadas como idade, sexo, cor, etc.

      Sobre a Barra do Ceará particularmente seria preciso um trabalho de fôlego para responder suas questões. Espero que pesquisadores nas universidades estejam com inquietações parecidas com as suas.

  2. A qualidade das estatísticas liberadas definitivamente não ajuda muito nas análises, Ilo. ”Homicídio” pode ser tanta coisa. Homicídio doloso pode ser atropelamento, acidente doméstico etc. O que é significativo para discutir políticas de segurança pública são dados como os de latrocínio, por exemplo ( e esses não vejo).

  3. Ora Marília, mas a exposição serve para relativizar os dados que são apresentados no dia a dia para os cidadãos. Poderíamos antes destas análises ficar fazendo mais recortes para produzir os relatórios detalhados e definir estratégia de ação para as políticas públicas. Agora para quem se propoõe a um blog “jörnalismo de dados”, imagino que o dados não deve ser atoa. Cumpre-se com menos discurso e mais com o levantamento de outras perspectivas.

  4. Pingback: Raio-X das apreensões de drogas em Fortaleza em 2012 | Jornalismo de dados

  5. Todos sabemos que não existe meio gol, mas um time pode ter a média de um gol e meio por partida certo? Com isso quero lembrar (não de forma a critica) que no ano passado houve pelo menos 01 (um) homicídio no bairro da Gentilândia, que foi o do Professor Vicente do IFCE de Sobral. No dia seguinte eu mesmo apreendi o filho da puta do menor que matou ele. Isso quando eu era policial, antes de ser expulso por assistir a uma reunião que tinha como pauta avaliar um calote que o governador Cid Gomes deu na categoria de Policiais e Bombeiros militares.

    • Olá, Alberto.

      Acho que você confundiu as datas. O caso do professor Vicente de Paulo Miranda Leitão foi em 21 de Setembro de 2011.

      Abraços,

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